domingo, 26 de setembro de 2010

Descrição Panorâmica

Lábio largo e provocador. Dos mesmos frios olhares de castanha neblina, de abrasar e acolher, a um rigor suave. Pedinte. Jeito negligente, melancólico, fortuito e vaidoso. Sisudo. Percorre a vista um leito em membros pequenos e conjuntos, harmoniosos, alvos - ásperos. Pequenos, macios; latentes, gostosos.

Na alvorada tardia distante. Quase ausente, mesmo ausente.

Um pintor em admirar um campo ao entardecer. Face in natura. Recorte natural. Retrato de mulher.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Deus de Deus

Pensava em meu momento de solitude a natureza de Cristo: Verbo consubstancial com o Pai, vero Deus de vero Deus, luz da luz; duas naturezas e duas vontades resultantes da hipóstase. E que nos procedeu à vivificante pneuma, Espírito Santo, orgão divino do Logos. Relembrado e revivido na comemoração da eucaristia, corpo e alma nutridos de seu sangue adorado e comido em forma do pão; presente aos olhos, sensível ao paladar, todavia anulado.

Redentor carpinteiro, anti-hercúleo, abaixo e acima do mundo, obra mestra de Aleijadinho.

Os sinos purificam o templo dos murmúrios. Olhos, lábios, contritos fiéis em conjuro. Um Pater do santo homem, a graça eficaz contemplando a irmandade. Eu. Sozinho, no banco a meditar.

Meu frio olhar aos homens; igual ao Altíssimo seus anjos e santos.

Sonho platônico levado aos povos, não pelos reis, mas, terapeutas, estóicos tardios, o traidor dos fariseus, e um profundo desejo de morte de um império. O amor pela dor pela morte do Deus...

... Litúrgica e gregária e comtemplada paz:

Mas roubo assim minha calma por um inquietar: "Sagrado és". O homem consagrado consagra e o consagrado é feito santo. O espinho e a fraqueza da carne. Toma pelos cabelos, pelos pequenos e inocentes lábios, olhar novo e puro, torna sagrado. Utiliza, rasga, afronta, viola. Mata. Reza adora e dorme.

Por cima do altar o olhar do Cristo, por ele, pela assembléia, nós. A estátua olha e não vê.

Amém.

"Va bene, va bene, arrivo. Aspettate un momento".
(Papa Alexander VI)

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

O Basilisco


Escrevo, pois vou mal com os olhos. Furaram-lhes; minhas maléficas retinas!
Escrevo pelo sangue retido em uma escama retirada. Indolor.

Nada tão risível quanto um temperamento abrandado. Maleável, dobrável, ao bel prazer e divertimento do escrupuloso e inescrupuloso. Da mais fina moral e dos mais moderados manejos gestuais, sincero o bastante para ruborizar em contradição e avesso a afetação de nossos aclamados bonachões, são dos tipos os mais degustáveis. Refiro-me a todos esses tipos médios como objeto de uso. Convenhamos, o predador é mais sapiência da mesma do que a própria pressa

Entre essas ruínas de um sonho de Império irrealizado, em alaridos confetes murmúrios, máscaras de Carnaval, passeia o cornudo a ceiar.

Pois bem. Digamos em tons claros: Um colega franzino, um desavisado cliente bancário, uma pietista frágil, um burro opostunista, gente simples e esperançada demais, uma poltrona. Sustentáculo móvel de uma vida malandra, anseio soçobrado de atormentados versadores. E é assim, as pessoas gostam de ler cartas com sangue e suor, e não gosto de escrevê-las. Palavras, palavras; extemporizam a sensação e a diluem em perspectivas. A realidade em cru é suficiente e muda, acausalidade vil, chamada diabólica ou desumana, tanto faz, vai pela sua credulidade. Ou má fé. Nossos consagrados mentirosos, até por dizer, sagrados, não são feitos de muito mais.

Mas ainda em meandros e rondas noturnas na experiência, furaram meus olhos. Abandonou-me o cornudo com bagaços do mal. Sufocado por meus próprios calabouços, ou cristalizado pelo ódio inocente das vítimas tantas, ou sobrepujado em meu debalde de parecer, inevitável encontro com o mero ser. Já não sou visto se não como sombra e sinistro, e meus olhos só resplandecem martírio.

Morto, sendo vivo. Meramente, e irreal.


"Má Consciência é como denominamos um desejo reticente de algum remorso casual, uma hipocrisia amigável, ou mesmo uma vaidade mais ególatra. Sempre espirituosa a má consciência, quando negada - Pela boca".
(Dom Ramon, Reflexões sobre a má consciência dos homens).



quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Tempesta - Fuga

Diz-me o velho carcamano:
- Tempesta
Diz com voz esganiçada
velada,
na cadeira, que balança
balança,
Com olhos cansados, distantes
Ao negro - perigoso - de um
horizonte

Nosso litoral,
escuro
E nossa almeira
voraz
Nossas praias
vazias
Nossos barcos
encourados
Nossos homens
escondidos
Como nós

Rebaixados, nós
Os ventos nos comovem,
Ao meu olhar brando, ofendido
Ao olhar dele, esguio, branindo
A chuva agora cai,
fria
torna em raso, liame
fitas frias nosso mar
Ao nosso desgosto
compasso
Inerte
de um julgar:
- Tempesta...
.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Sufi

Eu sou meu hóspede, assento meu lugar na alta morada
Eu sou caminhante, minha é a casa dos ventos
Meu caminho inicia minha morada
Assisto e lá, passa a brisa em meu rosto

Sinto no íntimo o pesar de tantas
despedidas

Carrego no olhar minha dhikr
Senti, sofri no abismo
o suportar de minha hüzün

A parábola dos dois homens solitários

Eles vivem andarilhos na aridez forte e vaidosa da superficialidade, a vida simples, material, sem sentido e causal, solitária sem grupos, solitário sem irmãos, solitários sem confrades, viver sempre refutado e afirmado. Observam tudo tanto de perto quanto de longe, caminham em todos os sítios, não assentam nenhum. Em tudo são desacreditados pois em nada acreditam, pois em nada compartilham, e a razão é a pena com a qual sacrificam e vivificam. Sozinhos, distantes das profundezas claras da rotina, e das delícias das nuvens ideais. São bandoleiros. São, mesmo assim, opostos ao extremo.



O primeiro passa por todas as coisas sem pernoitar, mas anuncia com voracidade. Caminhou em todos os sítios e de todos nada conserva. Perpetua o hábito de ir - Sempre por ir. Lá ao longe é sua casa. Se é habilidoso? Por vezes, em vezes. Dedilha a viola, passa um passo, reconhece as mais brandas vontades, são tão breves quanto ele, tão ilusórias quanto ele. Tentar compreendê-lo é ver seus passos... Apenas.



O segundo pernoita, brinda até o último copo, não anuncia, mas vai sempre. Permanece sem permanecer em todos os sítios e de todos conserva saudades. Conserva o vício de ir - Ir é sua necessidade. Em busca de casa, distante. É amável, e tenro, acolhedor como a bonança. Conta todos os causos, é brando e loquaz. Confiam e estimam, mas vai... Nenhuma confiança abranda o desejo de uma confiança maior, bem, logo além".

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Manifesto do Eterno Regresso



(...)

A cadeia de eventos refaz toda obra

A morte orienta o que a vida manobra

Nega base segura para as filosofias

Se da carne que arde renasce criança

Os registros akashicos sugerem bonança.


(Wasil Sacharuk)